FELIPE DE SOUZA - PSICOLOGIA E RH


Artigo intitulado "O Sonho Circular de James Joyce", publicado no site Symbolon:


http://www.symbolon.com.br/artigos/O_sonho_circular_de_James%20Joyce-Felipe_Luis_Melo_de_Souza.pdf



Escrito por FELIPE DE SOUZA às 17h34
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Sobre a divergência Jung e Freud
Felipe Luis Melo de Souza
felipeluissouza@yahoo.com.br

De príncipe herdeiro à profeta de novas religiões ou de gênio não reconhecido à teórico neurótico fixado na sexualidade - nos dizeres respectivos de Freud e Jung - sobre a relação entre o fundador da psicanálise e da Psicologia Analítica muito se escreveu à respeito da colaboração profícua à ruptura problemática.

No entanto, a dissolução das relações e as críticas parte a parte não significaram o completo abandono de certos pressupostos psicanalíticos por Jung. Clinicamente, o divã e a associação livre perderam lugar para o olhar face a face e técnicas como a imaginação ativa e a caixa de areia, mas o método de análise sempre serviu de base à interpretação dos sintomas e sonhos, junto da introdução posterior do método sintético e do ponto de vista teleológico, de influência adleriana.

via régia para o Inconsciente para Freud manteve-se presente - com suma importância - por exemplo nos questionamentos feitos pelo analista junguiano dos sonhos que o paciente tem nas noites precedentes ao início do tratamento. A consideração dos sonhos de primeira infância como preditivos do desenvolvimento da personalidade (ao menos até a meia-idade) é signo do valor da via reaberta por Freud, mesmo com as modificações na interpretação já presentes a partir de 1913 na conferência de Londres, publicada pela primeira vez com o título Psycho-Analysis (Jung, 1971, 230).

Com o rompimento definitivo em 1914, quando Jung deixa a presidência da recém criada Associação Psicanalítica Internacional, inicia-se a querela de atribuição de epítetos depreciadores de ambos os lados. No entanto, é claro que ele não foi acrítico. No prefácio da série de conferências dadas na Bafordam University em Nova Iorque (1912), que constituiu um curso de extensão, Jung, ao tomar contato com a teoria psicanalítica dez anos antes, escreve: cheguei à convicção de que não poderia tecer qualquer crítica verdadeira. Não possuía a disposição de certas pessoas que, por não compreenderem ou não poderem realizar algo, acham que tem o direito de rejeitá-lo criticamente (Jung, 1971, 97).

A crítica da exacerbação da sexualidade na obra do pai da psicanálise - que é feita frequentemente - esquece-se de que Freud e Jung possuíam o mesmo sonho inicial, o Falo. Nas palavras da maior colaboradora do último, é deveras significativo que o mesmo tema mítico básico, o deus fálico, tivesse aprisionado Jung e Freud (Von Franz, 1975, 56).

Jung, quando ainda colaborador da psicanálise, a defendia dos ataques feitos aos conceitos de libido e sexualidade, mais amplos do que o que comumente imaginam os leigos:



Há anos venho dizendo, em seminários e nos meus escritos, que o conceito de libido é usado em sentido extremamente genérico, (...) e que na terminologia psicanalítica não significa absolutamente "excitação sexual localizada". (Jung, 1971, 92).

 

 



Posteriormente a principal contestação à teoria psicanalítica viria a ser justamente a sexualidade e a fixação de seu criador nesta. Contudo Freud não se mostrou excessivamente apegado às suas idéias, refazendo de modo radical suas bases teóricas com o conceito de pulsão de morte, que modificou profundamente a psicanálise. É notório o tournant de 1920 (Mezan, 1989).

Ainda que Jung observasse atentamente tal transformação, a predominância do sexual é o fator sobre o qual incide geralmente suas contestações à psicanálise.

Evidentemente as dessemelhanças na divergência aqui abordada são enormes, e mais profundas do que "o apenas sexual", sem as quais Jung não teria criado a própria abordagem, de acordo com ele, representante de um tipo psicológico específico. A escola psicanalítica e adleriana estariam assentadas em outros tipos.

O primeiro grande livro de Jung após o rompimento, Tipos Psicológicos (1920), procura responder a tal problemática, embora soubesse não possuir um ponto de Arquimedes que o permitisse colocar-se fora do circuito de idéias elaboradas por ele e Freud, como atesta o artigo A Divergência Freud Jung (Jung, 1989)

Divergências à parte, Jung em sua Prática da Psicoterapia, em artigo de 1951, escreve




nos casos mais graves de neurose, não se deveria aplicar indistintamente um ou outro método, mas, dependendo do tipo do problema, a análise deve seguir de preferência os princípios de Freud e Adler (...) Quando as sessões começam a ficar monótonas e repetitivas (...) está na hora de abandonar o tratamento analítico-redutivo e de tratar os símbolos anagogicamente, ou sinteticamente, o que equivale ao método dialético e à individuação. (Jung, 1985, 16).

 

 

 

 


De modo que, por Jung, a herança freudiana não foi recebida diretamente nem com a morte de Freud em 1939 nem com o rompimento em 1914, embora tenha havido usufruto de conteúdos importantes para a constituição da Psicologia Analítica, tanto teoricamente quanto na prática clínica, (além dos efeitos da saída de Adler do movimento psicanalítico). Por isso, continua válida a recomendação de Jung, emL'analyse des rêves, de 1909 : Estou convencido de que o estudo deste método [psicanalítico] é extremamente importante, não só para psiquiatras e neurologistas, mas também para psicólogos (Jung, 1971, 35).

Bibliografia:

HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 1.0. Objetiva, 2000.
JUNG, C.G. A Prática da Psicoterapia. Editora Vozes, 1985.
JUNG, C.G. Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Editora Vozes, 1991
JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Editora Vozes, 1989.
JUNG, C.G. Tipos Psicológicos. Editora Vozes, 1991
JUNG, C.G. Psychologische Typen. Walter-Verlag, Düsseldorf, 1981
MIGLIORINI, W.J.M. Função Transcendente na obra de Jung: Definição e papel na interpretação. São Carlos, 1993.
MEZAN, R. A trama dos conceitos. Editora Perspectiva, Rio de Janeiro, 1989.
VON FRANZ, M. C.G. Jung - Seu mito em nossa época. Cultrix, São Paulo, 1997.

 



Escrito por FELIPE DE SOUZA às 17h26
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Tipologia Junguiana e Fernando Pessoa
Felipe Luis Melo de Souza
felipeluissouza@yahoo.com.br

"Navegar é preciso, viver não é preciso". Do deslocamento do sentido provocado pela ambigüidade da frase dos navegantes, a alma em sua plenitude, vazia, é despojada de sua nulidade e se transforma nas lágrimas salgadas de um povo. Ao se perder, se ganha. Deste paradoxo conceptista, o desejo da nação portuguesa é cantado pelo aedo.
Se a alma não se resume ao eu, tudo vale a pena. Das várias personalidades Pessoa fez surgir nomes de um outro ele mesmo, com datas de nascimento e mapa astral, cidades e profissões. Para cada uma delas o centro e a circunferência em nenhuma parte.
Pode-se, para além das questões estéticas sobre o belo artístico, sua produção criativa, desde a totalidade do poeta enquanto sujeito, ele mesmo (sem heteronômios e neles), destacar as funções tipológicas junguianas, no individuo que se tornou o maior poeta da língua portuguesa.
À parte toda questão estética da criação e da disponibilidade criativa para engendrar a beleza e a arte (e mais fundamentalmente a definição de belo artístico) ter a habilidade de se esquecer da ilusão do eu como centro da personalidade total é algo sobre-humano ao ser ocidental, que desenvolveu a ciência e a teknê em graus elevados. Nisto consiste a diferença entra a psique ocidental e oriental. No Leste, onde Deus talvez esteja vivo ainda, da ilusão da realidade o eu é a causa.
Intuitivo, cercado de imagens cheias de simbolismo, teve uma vida interna intensa e uma vida social pobre. Como Drummond, poucos, raros amigos. A sociedade lisboeta só reconheceu a importância de sua obra posteriormente, reconhecendo-se nela. (Mensagem, seu único livro publicado, ficou em segundo lugar no prêmio Antero de Quental, de 1934).
Pessoa soube ter próximas as vozes de seu gênio ou daimon, anunciando o surgimento do ser que iria para além dos Lusíadas cantar o mito da nação, nesta época com apenas 19 anos.
O Si-Mesmo no Ele-Mesmo de Pessoa é o ser em-si e para-si sobre a nação, para expressar a questão nos termos da Phänomenologie des Geistes, de Hegel. Mensagem, próximo da missão a que se propôs seguir, corresponde à relação entre Ich e Selbst, o Si-mesmo no eu, função transcendente da arte com repercussões no campo estético, político e ético.
A alienação de sua função superior se dá com o aparecimento-criação de Alberto Caeiro. Surgido desde e depois de longos desencontros, o camponês - que não via 34 na realidade e zombava da pomba do Espírito Santo, que na ausência da totalidade do conceito de natureza encontrava o saber ultimo em sensações dos entes particulares e não dos seres enquanto categorias - foi o inconsciente extrovertido e sensacionista de Fernando Pessoa, a libido jogada nas coisas, atirada nelas, perceptivamente.
Toda natureza estava presente nele, embora não pudesse existir um todo, e essa era a verdade que, sem procurar, havia encontrado. Afinal, não existe mesmo o 34 em uma tarde de sol, e Deus, se há um, nunca tinha ido falar com ele. O que ele via e sentia e degustava e tocava eram os entes, que sim, se fosse a cada parte, poderiam ser tidos por Deus.
[Ricardo Reis é próximo dessa realidade há muito pressentida, clássico, métrico, epicurista. Mas sua métrica e neoclassicismo é sintoma de seu pensamento].
Ao concluir escrevendo de uma vez só os 25 poemas iniciais da produção de Caeiro, surge a Ode Triunfal, em 8 de março de 1914. Álvaro de Campos, embora nascido antes de Caeiro, se vê despojado de sua métrica formal do Opiário, se constitui em puro e livre nigredo, expondo como, nos seus poemas em inglês e francês, seu lado mais perverso.
Na carta de 13 de janeiro de 1935 que escreve a Casais Monteiro, Pessoa se considera histérico, ou histero-neurastênico. A simulação, a auto-despersonalização (ou a super-personalização) cria poemas. A sombra, recalcada, da histeria, como se sabe, é comumente a perversão, a sexualidade. Se a neurose é o negativo da perversão, Álvaro de Campos é o negativo do poeta, ele mesmo. Na mesma carta: "cada poema do Álvaro de Campos (o mais histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança".
O nigredo nele é o poeta do sentimento. Sentir tudo de todas as maneiras. Todos seus juízos são valorativos, e de tanta intensidade libidinal contradiz-se a cada momento. A frase seguinte é a oposta da primeira: Do Esteves sem metafísica (ou real) que acena ao ser não-ser que tem em si todos os sonhos do mundo, Álvaro de Campos em suas longas passagem das horas poéticas se constitui na sombra arquetípica, iluminada completamente com o aparecimento de sua função inferior, Caeiro.


Bibliografia:

DRUMMOND, C. Alguma Poesia. Edições Pindorama. Belo Horizonte, 1930
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis: Vozes, 1992.
HEGEL, G.W.F. Phänomenologie des Geistes. Meiner, Berlin, 1988.
HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 1.0. Objetiva, 2000.
JUNG, C.G. Tipos Psicológicos. Editora Vozes, 1991
JUNG, C.G. Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Editora Vozes, 1991
JUNG, C.G. Psychologische Typen. Walter-Verlag, Düsseldorf, 1981
MIGLIORINI, W.J.M. Função Transcendente na obra de Jung: Definição e papel na interpretação. São Carlos, 1993.
PESSOA, F. Obra Poética. Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995.
PESSOA, F. Obra em Prosa. Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995.
www.vidaslusofonas.pt/fernando_pessoa.htm Acesso: novembro 2007.



Escrito por FELIPE DE SOUZA às 17h21
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