"Navegar é preciso, viver não é preciso". Do deslocamento do sentido provocado pela ambigüidade da frase dos navegantes, a alma em sua plenitude, vazia, é despojada de sua nulidade e se transforma nas lágrimas salgadas de um povo. Ao se perder, se ganha. Deste paradoxo conceptista, o desejo da nação portuguesa é cantado pelo aedo. Se a alma não se resume ao eu, tudo vale a pena. Das várias personalidades Pessoa fez surgir nomes de um outro ele mesmo, com datas de nascimento e mapa astral, cidades e profissões. Para cada uma delas o centro e a circunferência em nenhuma parte. Pode-se, para além das questões estéticas sobre o belo artístico, sua produção criativa, desde a totalidade do poeta enquanto sujeito, ele mesmo (sem heteronômios e neles), destacar as funções tipológicas junguianas, no individuo que se tornou o maior poeta da língua portuguesa. À parte toda questão estética da criação e da disponibilidade criativa para engendrar a beleza e a arte (e mais fundamentalmente a definição de belo artístico) ter a habilidade de se esquecer da ilusão do eu como centro da personalidade total é algo sobre-humano ao ser ocidental, que desenvolveu a ciência e a teknê em graus elevados. Nisto consiste a diferença entra a psique ocidental e oriental. No Leste, onde Deus talvez esteja vivo ainda, da ilusão da realidade o eu é a causa. Intuitivo, cercado de imagens cheias de simbolismo, teve uma vida interna intensa e uma vida social pobre. Como Drummond, poucos, raros amigos. A sociedade lisboeta só reconheceu a importância de sua obra posteriormente, reconhecendo-se nela. (Mensagem, seu único livro publicado, ficou em segundo lugar no prêmio Antero de Quental, de 1934). Pessoa soube ter próximas as vozes de seu gênio ou daimon, anunciando o surgimento do ser que iria para além dos Lusíadas cantar o mito da nação, nesta época com apenas 19 anos. O Si-Mesmo no Ele-Mesmo de Pessoa é o ser em-si e para-si sobre a nação, para expressar a questão nos termos da Phänomenologie des Geistes, de Hegel. Mensagem, próximo da missão a que se propôs seguir, corresponde à relação entre Ich e Selbst, o Si-mesmo no eu, função transcendente da arte com repercussões no campo estético, político e ético. A alienação de sua função superior se dá com o aparecimento-criação de Alberto Caeiro. Surgido desde e depois de longos desencontros, o camponês - que não via 34 na realidade e zombava da pomba do Espírito Santo, que na ausência da totalidade do conceito de natureza encontrava o saber ultimo em sensações dos entes particulares e não dos seres enquanto categorias - foi o inconsciente extrovertido e sensacionista de Fernando Pessoa, a libido jogada nas coisas, atirada nelas, perceptivamente. Toda natureza estava presente nele, embora não pudesse existir um todo, e essa era a verdade que, sem procurar, havia encontrado. Afinal, não existe mesmo o 34 em uma tarde de sol, e Deus, se há um, nunca tinha ido falar com ele. O que ele via e sentia e degustava e tocava eram os entes, que sim, se fosse a cada parte, poderiam ser tidos por Deus. [Ricardo Reis é próximo dessa realidade há muito pressentida, clássico, métrico, epicurista. Mas sua métrica e neoclassicismo é sintoma de seu pensamento]. Ao concluir escrevendo de uma vez só os 25 poemas iniciais da produção de Caeiro, surge a Ode Triunfal, em 8 de março de 1914. Álvaro de Campos, embora nascido antes de Caeiro, se vê despojado de sua métrica formal do Opiário, se constitui em puro e livre nigredo, expondo como, nos seus poemas em inglês e francês, seu lado mais perverso. Na carta de 13 de janeiro de 1935 que escreve a Casais Monteiro, Pessoa se considera histérico, ou histero-neurastênico. A simulação, a auto-despersonalização (ou a super-personalização) cria poemas. A sombra, recalcada, da histeria, como se sabe, é comumente a perversão, a sexualidade. Se a neurose é o negativo da perversão, Álvaro de Campos é o negativo do poeta, ele mesmo. Na mesma carta: "cada poema do Álvaro de Campos (o mais histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança". O nigredo nele é o poeta do sentimento. Sentir tudo de todas as maneiras. Todos seus juízos são valorativos, e de tanta intensidade libidinal contradiz-se a cada momento. A frase seguinte é a oposta da primeira: Do Esteves sem metafísica (ou real) que acena ao ser não-ser que tem em si todos os sonhos do mundo, Álvaro de Campos em suas longas passagem das horas poéticas se constitui na sombra arquetípica, iluminada completamente com o aparecimento de sua função inferior, Caeiro.
Bibliografia:
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